domingo, 15 de maio de 2016

A afirmação de uma identidade cultural.


                                                      Elvécio Eustáquio da Silva

Sou mineiro, de Nova Era. A cidade nutre meu espírito, contribui para me definir e fertilizar minha imaginação.
Minha relação com minha cidade é de fruição mágica, cumplicidade e comprometimento. E assim vou captando um pouco de sua forma, de seus atrativos e de seus problemas, sem a pretensão de conhecê-la por completo.
Ah, como procuramos aquele céu, aquela paisagem, a terra prometida, o Eldorado onde tudo se resolverá, tudo passará a ter sentido. No entanto, a procura é sempre vã.
Precisamos encontrar a cidade de nossos sonhos aqui mesmo, a partir do que a cidade nos oferece: sua ancestralidade, que é nossa ancestralidade, sua paisagem e seus problemas.
Temos de deixar de viver como eternos assistidos. Apesar de nosso município ser pequeno, precisamos nos esforçar ao máximo para assumir seu destino, redescobrindo e reafirmando nossa crença na vitalidade de nosso passado e de nossa cultura, para assim desenvolvermos, com identidade, nossa visão, nossa expressão e nossa imaginação, caminhando para um despertar cultural inspirado, estimulado e conduzido por nosso povo, não se detendo nas fronteiras artificiais traçadas pelos burocratas, por excludentes e perversos sistemas políticos, administrativos e econômicos. Para mim, esse despertar será a sinalização de que nos libertamos e começamos a encontrar nossa razão de ser.

Salve Nova Era!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

SÃO JOSÉ DA LAGOA NO CONTEXTO DO PROCESSO HISTÓRICO

SÃO JOSÉ DA LAGOA NO CONTEXTO DO PROCESSO HISTÓRICO
                                                                                                              Elvécio Eustáquio da Silva

“É antiquíssima a habitação deste distrito, que tem sua história ligada a todas as explorações de ouro do Vale do Piracicaba, mas não resta memória de onde lhe tenham vindo os primeiros habitantes, se águas acima ou abaixo. Foi povoado em consequência da mineração, e os montões de cascalhos que ali em todas as terras baixas se encontram, mesmo nas ruas do povoado, provam grandes e poderosos serviços mantidos por muitos anos. É de crer que esses serviços fossem ainda anteriores aos da Serra de Itabira, a aceitarmos a entrada dos bandeirantes pelo Piracicaba, onde termina o Rio do Peixe, que corre a 3 km da cidade – O documento mais antigo que conheço a seu respeito é o título de patrimônio legado ao Orago da Capela, que é hoje Matriz. É dos princípios do século XVIII, mas já refere-se à população como existente e já havia muitas roças, das quais uma foi comprada e doada ao Santo. Por esse documento vê se que nos princípios de 1700 já havia povoado e muita cultura e, por conseguinte que os moradores, esgotada a mineração ‘casqueira’ de talho aberto, ao menos a conhecida, e talvez desanimados com as péas legais dessa indústria, se entregassem à cultura, sendo as terras ubérrimas, abandonando a idolatria do bezerro de ouro.”
                                    (R.A.P.M; Ano III; 1898; pag.347)

A historiografia do fim do século XIX e das primeiras décadas do século XX revela um pouco dos primórdios da história do município de Nova Era. Historiadores, entre outros Padre Júlio Engrácia (monografia – Revista do Arquivo Público Mineiro – 1898), Alfredo Moreira Pinto (Apontamentos para o Dicionários Geográfico do Brasil – 1899), Padre Pedro M. Vidigal (Monografia datilografada “Da Fundação até a Proclamação da República” – 1939; “Amador Bueno – O Aclamado na Família Lagoana – 1945 – Imprensa Nacional) e Pedro E. Vallim (Álbum dos Municípios do Estado de Minas Gerais – 1º Volume – 1941) são unânimes em referir que é antiguíssimo o povoamento desta terra, com serviços de mineração anteriores aos da Serra de Itabira, e que nos princípios de 1700 já havia povoado com Capela e com muita cultura. O historiador Pedro E. Vallim chega a ser afirmativo ao dizer que estas terras foram, inicialmente, povoadas em uma época que remonta possivelmente a 1700.
A unanimidade dos historiadores citados atesta que o nosso município tem uma trajetória tricentenária, lastreada por uma aventura aurífera que perdurou através de faiscadores até os primórdios do século XX, referindo-se também aos “montões de cascalhos”. O Padre Júlio Engrácia refere-se a “montões de cascalho lavados que surgiram em consequência dos poderosos serviços de mineração”, tornando-se uma intervenção no núcleo do Arraial de São José da Lagoa que se desenvolveu em volta das lavras e gerando uma paisagem peculiar sobre a qual antigos moradores também deixaram as suas impressões, que chegaram aos dias de hoje através da tradição oral. De acordo com essas impressões, a marca dos serviços de mineração aqui ocorridos se encontravam de forma mais espetacular nos locais onde hoje se situam as ruas dos Bandeirantes, João Pinheiro e Governador Valadares, e também no Bairro da Estação, que se prolongava até a localidade de Figueira; e ainda que, para a lavagem do cascalho em alguns pontos onde hoje se localiza a sede do município, a água era capitada a aproximadamente 15 Km de distância.

Nas áreas periféricas, assim como nas demais, distantes da sede do município, este cenário de grandes extensões de terras baixas cobertas por uma infinidade de montes de cascalho que vistos de longe se assemelhavam a dunas se manteve intocável até a década de 60 do século XX, quando desapareceu em consequência da expansão urbana e, principalmente, devido à utilização do cascalho como matéria prima na pavimentação de estradas e também ao seu emprego nas indústrias siderúrgicas da região. Hoje estes vestígios são raros, mas as antigas denominações dos principais núcleos de mineração ainda permanecem: Figueira, Macacos, Pedra Furada, Piçarrão e Rio de Peixe.
Quanto à citação do Padre Júlio Engrácia sobre um documento que ele conhecia, do princípio do século XVIII, o mais antigo acerca do Arraial de São José da Lagoa que diz respeito ao “patrimônio legado ao Orago da Capela, que é hoje Matriz”, cabe ressaltar que até hoje só foram encontradas vagas referências a esse documento e que nenhuma informação sobre aquela primitiva Capela foi localizada. Tal Capela não se tornou Matriz conforme mencionado e a que foi preservada não é dos princípios do século XVIII já que sua edificação se deu por volta de 1753 pelos moradores do lugar, tendo sido o seu patrimônio constituído de terras doadas por “Domingo Francisco Cruz, morador na Passagem (hoje Bairro Santa Maria), da Freguesia de São Miguel do Piracicaba, Comarca de Sabará (...)” através de escritura pública lavrada em cartório no Arraial de Nossa Senhora da Conceição de Catas-Altas em 1754 e na qual é citada a doação de uma roça por ele adquirida do Alferes José de Miranda Ribeiro pela quantia de 250 oitavas de ouro para a construção da nova capela (Arquivo da Diocese de Itabira – Petição e Escritura de Doação que fez Domingos Francisco Cruz).
Sobre a antiguidade do Arraial de São José da Lagoa, Pedro Maciel Vidigal, em sua monografia (Da Fundação até a Proclamação da República; 1939), deixa sua contribuição – “Assim podemos afirmar que, quando D. João V subiu ao trono de Portugal em 1706, Lagoa já estava descoberta. Quando em 1720 foi fundada a Capitania de Minas, desmembrada do território paulista, já era núcleo de população bem regular”.
No livro “Pluto Brasiliensis”, capítulo 5º, parte 3ª, da grande obra do Barão de Eschwege – “Notas Geognósticas e Montanísticas sobre as Lavras de Ouro de Minas Gerais” – publicado na R.A.P.M/Ano II, pág. 632, volume IV – 1897, consta uma tabela de todas as lavras de ouro em atividade no ano de 1814 em cada distrito da Província de Minas Gerais. Nesta tabela, o Arraial de São José da Lagoa é contemplado com o registro de 4 lavras: a do Padre José Domingues, de Manoel Ribeiro da Fonseca, de Joaquim Ribeiro da Costa e a de Luciano José da Silva. Ainda nesta tabela é feita referência ao trabalho de grande vulto dos faiscadores livres.
Uma documentação existente no Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) informa que a mineração aurífera em São José da Lagoa se manteve com bons resultados até os primeiros decênios do século XIX. E para o controle desta produção foi instalada nesse arraial uma Casa de Permuta – órgão criado a partir de 1803 para permutar ouro por moeda corrente; esse estabelecimento aqui se manteve em funcionamento até o ano de 1818 (Inventário da Coleção Casa dos Contos; livros 1700-1891/Coordenação de Caio C. Boschi, Carmem Moreno, Luciano Figueredo – Belo Horizonte: PUC Minas, FAPEMIG, 2006.
Em um texto anônimo sobre a cidade de Nova Era encontra-se o significativo registro de que, no ano de 1942, “no leito do Rio Piracicaba os faiscadores haurem mensalmente nada menos de 4 quilos do precioso metal”.
Em 1848 o Arraial de São José da Lagoa foi elevado a Paróquia e a distrito de Itabira. Emancipou-se politicamente em 1938 com a denominação de Presidente Vargas, instalado a 1º de janeiro de 1939. E a partir de 1942 passou a denominar-se Nova Era, porém tal mudança toponímica só foi confirmada em dezembro de 1943.
O município de Nova Era a partir da década de 1970 torna-se o território das tão cobiçadas esmeraldas, revivendo sagas ancestrais, gerando riquezas, tragédias e excluídos. Gemas que através dos séculos provocaram delírio e cobiça, que levaram Bandeiras e aventureiros a desbravarem os sertões das Geraes.
O poluído Rio Piracicaba que sinuosamente atravessa a cidade de Nova Era, traz as marcas da tricentenária ocupação inescrupulosa em todo o seu vale. Em seu leito até hoje garimpeiros solitários insistem em apurar pepitas douradas no fundo de suas bateias. Mas o testemunho de um tempo áureo permanece no brilho do ouro nos retábulos da Igreja Matriz de São José da Lagoa, sendo o seu retábulo-mor de autoria do conceituado entalhador e escultor Francisco Vieira Servas e o colateral, ao lado da epístola, que recebe uma curiosa subdivisão do camarim em dois níveis, talvez seja o único exemplar existente com esta característica.
Por esta síntese apresentada sustento que o município de Nova Era teve um primórdio comum aos demais do Ciclo do Ouro, ocupando lugar na história do Vale do Piracicaba.
Os pioneiros aqui instalados extraíram ouro em abundância e a tradição oral se encarregou de preservar as suas sagas, mitos, devoções e personagens. Deixaram lastros culturais que as novas gerações foram redimensionando nesta terra, edificando o arraial, depois distrito e por fim, cidade.


                           Um desses pioneiros, Domingos Francisco Cruz entrou para a história da cidade de Nova Era pelo ato exemplar, atitude de fé, edificando uma marca desta região que, desafiando o tempo, permanece: a igreja matriz de São José da Lagoa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Inauguração da nova sede da Prefeitura de Nova Era

29/06/1965

Prefeito Antônio Martins Guerra, com o Deputado Pio Soares Canedo, representante do Deputado Sebastião Paes de Almeida no ato de desatar a fita inaugural.

Festival de Inverno em Nova Era - 1975


Happening (01/07/1975) - O grupo de atores saiu do Bar Opção, percorreu a Valadares e subiu a Ladeira até a sede do Museu, que estava em estado precário. A intenção era chamar a atenção para o estado do casarão.

1ª voz:
Estamos indo pra nossa casa
lá comeremos pão quentinho.
Estamos indo pra nossa casa,
lá tomaremos nosso vinho.
2ª Voz:
Mas como pão e vinho
se nossa casa está ruindo?
Coro:
Mas como pão e vinho
se nossa casa está ruindo?
1ª Voz:
Se nossa casa está ruindo...
Oh, mas assim mesmo
cantaremos o nosso hino
comeremos e beberemos
à sombra das ruínas.
2ª Voz:
à sombra das ruínas...
Coro:
estamos indo pra nossa casa, etc.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Francisco Vieira Servas! Quem foi este homem?



Francisco Vieira Servas, artista português, entalhador e escultor, nascido em 1720 na região do Minho, que, como muitos outros jovens de seu tempo, se sentiu seduzido pelas narrativas que do além mar em sua terra chegavam, onde eram contadas e recontadas, sobre o eldorado em terras do sertão adentro no Brasil colônia. Chegar a essas terras passou a ser a sua meta, de alguns de seus familiares e de muitos outros patrícios , principalmente das regiões mais pobres, como o norte de Portugal, onde ele nasceu e lá vivia juntamente com a sua família.
O sonhado território onde Servas e seus familiares pudessem ser acolhidos, receber concessões de títulos de terra, melhores condições de sobrevivência, mercado de trabalho promissor onde fosse possível se afirmar como oficial entalhador e ser reconhecido como tal, colocar em prática informações sobre novas formas decorativas que já se prenunciavam  em Portugal, em especial as lições que certamente recebera do mestre entalhador Francisco Vieira da Torre, seu padrinho de Batismo. E assim nessa expectativa partiram para a travessia do Atlântico, para viver uma grande e bem sucedida aventura nos sertões das Gerais, tumultuado e promissor território, dinâmico canteiro de obras,  efervescência social e cultural, circularidade de informação. Mas não se sabe ainda em qual porto e a data da chegada de Francisco Vieira Servas, juntamente com a sua comitiva ao Brasil Colônia.
É de relevante importância á Constatação documental da presença de Vieira Servas em 1753, em Catas Altas, o documento que relevou o artista e a sua presença no Brasil Colônia, especificamente na capitania de Minas Gerais, onde tornou-se um profissional conceituado.
A sua articularidade nos centros mais dinâmicos, como também nas periferias dessa Capitania é fato já devidamente comprovado, principalmente regiões hoje denominadas Circuito do Ouro, onde deixou as suas marcas, discípulos e um lastro de história, que paulatinamente vem sendo desvendado.
A dinâmica de mercado de trabalho e diversidade de informação reinante nos contextos incomuns da Capitânia, somados a sua carga de conhecimento advinda de sua terra, obviamente determinaram a sedimentação estética em sua obra surpreendentemente rococó, imprimindo nesse novo estilo a sua identidade. Uma obra mantida numa linha coesa em seu conjunto, mas sem perder o vigor, a constante e requintada mutação, sempre nos surpreendendo.
Artista que tornou-se respeitado em seu tempo, hoje a sua arte encanta, e juntamente com arte de seus pares enobrece o patrimônio cultural do nosso estado e do nosso país. Patrimônio de relevância para a desejada consolidação do desenvolvimento de atividade turística na microrregião do Vale do Rio Piracicaba.
Segundo o historiador português Eduardo Pires de Oliveira, Francisco Vieira Servas foi um dos melhores exemplos de arte destes dois mundos (Brasil/Portugal), que, apesar de separados por mais de 9.000 quilômetros de distancia, têm tantos ou mais pontos de união que de separação.
                                          

                                                                   Elvécio Eustaquio da Silva

2015

Carnaval em Nova Era


Elvécio Eustáquio da Silva
            Nas primeiras décadas do século XX, na cidade de Nova Era, as agremiações carnavalescas eram denominadas de rancho, dinamizavam a vida social de então, animados cordões pelas ruas do distrito, e cada um realizava o seu baile, com destaque para o Esperança e para o Operário,  motivados pela concorrência entre eles. Mas sobre estes ranchos pouco sabemos.
            A mais antiga informação escrita encontrada sobre o carnaval em Nova Era, está num livro, Canfora Uma História, escrito por Maria Canfora, comemorativo do Centenário da chegada da Família Canfora ao Brasil – 1897 a 1997. Neste livro, a passagem da família da autora por Nova Era se encontra registrada em detalhes, com destaque para os festejos carnavalescos que foram realizados nesta cidade no ano de 1921, quando ainda São José da Lagoa era distrito de Itabira. Nas páginas 38 a 40, emocionantes narrativas de uma grandiosa festa momesca idealizada e realizada pelo pai da autora, o italiano Alfredo Canfora, que soube interagir com a comunidade para a sua concretização. Entre os 11 filhos do Casal Alfredo Canfora e Isaura Donati, Maria Canfora, primogênita, portanto guardiã da memória da família.
            Para o conserto de uma ponte de madeira que se encontrava com partes arruinadas por falta de manutenção, Alfredo Canfora chegou a São José da Lagoa em 1918, vindo de Belo Horizonte, onde residia juntamente com seus familiares. Esta ponte, de nome Dona Amélia, tinha o comprimento de 118 metros. Em 1920 Alfredo transfere a sua família para São José da Lagoa e muitas amizades fizeram neste distrito. Em conversa com o empresário local Oscar de Araújo, Alfredo revelou ter atuado na montagem de carros alegóricos para o carnaval em Belo Horizonte. Descreve Maria Canfora: “na mesma hora os olhos do Sr. Oscar brilharam de satisfação e abrindo os braços falou com alegria: Alfredo, vamos mostrar a este povo o que é carnaval!” Alfredo que nunca sabia dizer não, topou na hora e, neste mesmo dia, começaram a fazer os planos para a grande festa que seria o Carnaval de 1921. A notícia correu não só aqui, mas em toda a região gerando grande expectativa. Muitas ações criativas e laboriosas foram desenvolvidas, algumas em absoluto segredo.
            “O teatrinho da cidade foi todo preparado com rigor para a realização dos bailes e matinês que foram animados pela Corporação Musical Flor de São José, comandada pelo maestro Alvim Vitorino”. É nesse teatro que aconteciam diversificadas atividades comunitárias, como também era lá que as Companhias Teatrais e de outras categorias artísticas que circulavam nesta região se apresentavam, entre outras, a Companhia Miramar.
            A grande atração deste carnaval foi o desfile dos carros alegóricos tendo à frente “uma cavalaria formada por jovens da cidade montados em cavalos ornamentados”, a seguir alas de jovens fantasiados.
            “O primeiro carro alegórico era formado por dois Cisnes Brancos puxando uma pequena carruagem... o seguinte era um enorme avestruz... em seguida, a grande sensação: um elefante, enorme,... Fechando o desfile vinha a maior sensação da noite: O Dragão! O corpo do animal era todo coberto por escamas... À meia noite, uma grande surpresa! Os fogos de artifício! Foi um espetáculo inesquecível!...”
            Através de um criativo e divertido boletim-convite tomamos conhecimento do carnaval aqui realizado em 1942, no já então emancipado distrito de São José da Lagoa, que passou a denominar-se Presidente Vargas. Anunciando bailes à fantasia e premiações diversas. Segundo o referido documento, essa festa aconteceu no cine local, mas que se tratava do mesmo teatrinho onde foram realizados os grandes bailes em 1921, que passou a funcionar também como cinema. Informou ainda que a renda seria em benefício da construção do hospital da cidade e não cita nomes da comissão organizadora.
            A revista Caminhos Gerais, edição especial Nova Era 3 séculos de história (nº 29 -março de 2012) , traz em sua página nº 55 uma foto do carnaval de 1950, “foliões comercialinos, Ercy, Matilde, Lídia, Maria do Realino e Marieta juntamente com o folião Epídio, exibindo as famosas lança-perfumes douradas”. Nas décadas de 40 a70 do século passado, foi que se consolidou em Nova Era o carnaval de rua e de salão. Época em que as Agremiações Sociais e Esportivas se encontravam no auge, a exemplo: o Automóvel Clube, o Comercial Futebol Clube, Minas Esporte Clube .
            As referidas instituições, em clima de rivalidade, promoviam concursos internos elegendo as suas rainhas e princesas, que com brilhantismo desfilavam pelas principais ruas da cidade em carros ricamente decorados, acompanhados por alas e em corso de alegres foliões fantasiados e cada agremiação com o seu conjunto musical. Os Blocos independentes e grupos irreverentes davam graça ao carnaval.
            As batalhas de serpentinas confetes e lança-perfumes, e os foliões fantasiados pelas ruas e bares também foram uma das marcas dos carnavais do período citado. As instituições em foco entraram em processo de decadência, os blocos em grande número foram diminuindo, e o prazer de fantasiar-se nos dias de carnaval foi se acabando e as marchinhas e o samba foram desaparecendo da cena carnavalesca.
            O carnaval em Nova Era, e certamente em muitas outras cidades mineiras, no decorrer de décadas, passou por várias fases, cada uma com as suas características. Na década de 70 a década de 90 do século passado, por influência dos meios de comunicação de massa, as Escolas de Samba, expressão cultural do Rio de Janeiro, proliferam-se por todo o interior do nosso Estado. A cidade de Nova Era passou a ter, anualmente, com direito a Rei Momo e Rainha, desfiles luxuosos de 4(quatro) escolas: Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Manjahy, ex Princesinha do Morro, Desce Ladeira, Acadêmicos do Sagrada Família e Unidos do Ladilá, que ano a ano se degradiavam numa disputa equivocada.
            O carnaval local ainda era enriquecido com bailes, matinês, blocos e grupos fantasiados, por último surgiu a Bandinha dos Farrapos fazendo grande sucesso, manifestações amplamente registrada pela mídia local e regional.
            Em 1994 as 4 escolas fizeram os seus últimos desfiles, deixando um lastro de conflito, e ainda, algumas levaram como troféu dívidas acumuladas, e assim saíram de cena. Como aqui, as Escolas de Samba foram desaparecendo nas pequenas cidades do nosso estado.
            Lideranças desmotivadas não tiveram projetos nem apoio para combater uma nova ameaça a nossa identidade, as expressões carnavalescas baianas, conectadas à indústria fonográfica e redes de tevê, com grande poder de influência e sedução, como os trios elétricos, bandas de Axé, em maioria meramente comercial sem nenhuma qualidade, mera banalização cultural, entre outras manifestações colonizadoras, provocando prejuízo identitário, anulando matrizes culturais e assim inibindo uma busca alternativa.     
          O Carnaval MPB na Rua Governador Valadares, que aqui é um diferencial permanece. Permanecendo também a Bandinha dos Farrapos e alguns remanescentes do Bloco Boca de Gole em trajes femininos. Os grupos fantasiados desapareceram e os bailes de salão já não tem sentido. Novos tempos!
            Não sabemos qual será a nova intervenção da mídia em nossa cultura para os próximos carnavais. Não podemos ficar na contramão da história, somos nós, nova-erenses, através de uma política cultural adequada, que temos de definir o rumo dos nossos próximos carnavais.
2013